Mercedes-Benz Classe R


INTRODUÇÃO

Quando eu e o Rui decidimos começar este blog, desde logo ficou assente que nos iríamos tentar distinguir dos demais de duas formas. Primeiro, teríamos que conduzir os automóveis sobre que escrevemos. Nada de ensaios copiados de revistas ou sites estrangeiros. Segundo, escreveríamos mais sobre a experiência de usar e conduzir cada carro do que propriamente das suas características técnicas. Porque números nus e crus pouco informam. Uma brochura diz quantos litros tem uma bagageira, mas não quantas malas de viagem lá cabem.

Por isso foi bastante engraçado chegar à C. Santos VP e receber as chaves de um Classe R 350cdi. Já que queremos ser um blog diferente… vamos então começar com um teste a um carro que não poderia ser mais diferente dos outros. Parece justo.

SUV? Monovolume? Asteróide? Só há uma maneira de descobrir.

SOBRE O CLASSE R

Tem umas rodas gigantes, mas não é um SUV. Tem três filas de assentos, todas ao mesmo nível, mas não é bem um monovolume. Os bancos trazem apoios laterais de série, mas também não é um desportivo. Então o que é?

“Na realidade não tem um segmento definido”, dizem-nos. “Por isso não tem propriamente concorrência”. Torço sempre o nariz quando me dizem isto. O vendedor típico adora destacar radicalmente o seu modelo dos outros, mesmo quando se fala de propostas tão mundanas quanto um Golf ou um Clio.

Contudo, neste caso, basta olhar para ver que nos dizem a verdade. É uma criação muito peculiar, este Classe R. Muito difícil de etiquetar. Se isso é bom ou mau, depende da perspectiva do comprador. O próprio design é pouco consensual: há quem adore, há quem deteste. A mim não encanta por aí além, mas não posso negar que tem presença.

Uma coisa é certa. Este bólide não é para todos. E digo isto em mais do que um sentido.

Síndroma de personalidade múltipla ou génio incompreendido?
Bem… ele não parece muito preocupado.

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

A meio da apresentação que nos deu o vendedor da C. Santos VP (nota 20 pela paciência que teve comigo), tive que sair do lugar do condutor, circundar o carro, e ir até ao do passageiro. Decidindo dar a volta pela retaguarda, fiquei surpreendido pelo tempo que me levou chegar ao outro lado. Muito tempo. A barba tinha crescido visivelmente a toda a gente, e lá fora já estava de noite. O R é grande.

Mesmo grande. Maior que uma carrinha Classe E ou uma Série 5, e bastante mais largo. Felizmente, todo este tamanho traduz-se em algo que para mim, pessoalmente, é raro encontrar. Espaço interior generoso. Medindo 1m85, é raro o automóvel onde posso ficar confortável quer à frente quer atrás. Este Mercedes, com três filas de bancos, surpreende pela positiva nesse aspecto.

Mesmo na fila de trás, o espaço abunda. Raro.

O conforto é ainda ajudado pela presença, de série, de estofos em pele, bancos frontais completamente ajustáveis por comando eléctrico, protecção anti-encadeamento em todos os retrovisores e ar condicionado tri-zona automático. O formato do veículo, bastante alto, retira também todo o esforço às entradas e saídas. E para alguém com mobilidade reduzida, a grande amplitude de abertura das portas é também uma ajuda bem vinda – desde que o lugar de estacionamento seja largo.

Todas as superfícies do interior são suaves ao toque, à excepção das palas de protecção solar. A Mercedes parece tê-los roubado a um citadino coreano, o que é surpreendente considerando a qualidade dos restantes materiais. Felizmente não é lá que as mãos passam a maior parte do tempo. De resto, o habitáculo tem um aspecto acolhedor, contudo robusto. Os controlos são sólidos e bem posicionados para fácil acesso ou consulta. Pequenos detalhes que noutros automóveis são fontes de dor de cabeça, como o rebatimento dos bancos, são fáceis neste Mercedes.

Nota-se que a marca alemã sabe uma coisa ou duas sobre ergonomia. Aposto que tem uma enorme equipa de cientistas obsessivo-compulsivos encarregues de decidir onde cada controlo deve ficar, que cor deve ter e que som deve fazer quando pressionado pelo dedo gordo de um condutor indiferente.

Infelizmente esses cientistas foram todos de férias quando se concebeu o COMAND, o sistema integrado de entretenimento, navegação e comunicação.

Hipótese: Eles desenharam um compartimento perfeito para o iPhone.
Depois vieram estagiários criar uma interface Bluetooth que não o deixa ligar-se.

Isto não é um problema só da Mercedes. Uma das grandes dificuldades que todas as marcas sentem hoje em dia é acrescentar tecnologia aos carros sem os tornar demasiado complicados. Infelizmente, têm de um modo geral falhado redondamente.

Na era do iPhone e do Android, a ausência de controlos tácteis no écran do Classe R é uma omissão difícil de engolir. Tanto eu como a minha namorada tentámos instintivamente operar o COMAND tocando no écran. Eu, que lido com informática numa base diária, perseverei e aprendi a usar (a maioria dos) controlos. Mas ela, mulher das Letras e das Artes, pouco interessada em dissecar as funções de uma consola, desistiu imediatamente. Não tenho dúvida de que, nas mãos da maior parte dos compradores, estes COMANDs, iDRIVEs e similares passem a maior parte do tempo dormentes.

O que é pena, porque as funcionalidades em questão até são interessantes. O rádio apanha todas as estações da galáxia, a navegação por satélite é muito competente e a ligação bluetooth ao telemóvel deve ser muito útil em viagem. Mas com uns controlos baseados em botões e um sistema de comando por voz que nunca percebe se quero telefonar ou mudar de rádio, deveria ser muito mais simples aceder-lhes sem ter que ler o manual.

Mais “clean” que muitos, mas frustrante por vezes. Um écran táctil seria melhor.
E os comandos no volante deveriam reagir ao contexto desse écran.

NA ESTRADA

Com a largura de um campo de futebol e o peso de uma pequena lua, os primeiros momentos na rua foram tensos. Este não é um veículo para principiantes. Circulando por ruas estreitas, cheias de trânsito em sentido contrário, a minha primeira preocupação foi para com os 90 mil euros de metal à minha volta.

Navegar por parques subterrâneos apertados foi também uma aventura. Felizmente os espelhos são do tamanho de televisões e os sensores de parqueamento bastante informativos. Com atenção e delicadeza, o R lá entrou e saiu do parque claustrofóbico do nosso escritório.

Na rua, a caixa automática e o “lag” do turbo conspiram para que o R nunca se assemelhe a um citadino ágil. Mesmo em modo “sport”, é necessário planear bem as mudanças de faixa e as entradas em rotunda, porque o motor demora um valente segundo a reagir.

Mas de resto, desde que haja largura suficiente na via, este Mercedes é facílimo de conduzir. Suave e dócil, um autêntico “gentil gigante”. Mas capaz em qualquer altura de um incrível surto de potência.

“Em qualquer altura”, que é como quem diz, “invariavelmente”.
Esta é a principal vista oferecida pelo Classe R aos outros condutores.

Algo que se tornou cada vez mais óbvio, quer no trânsito da hora de ponta, quer nos troços mais despachados da auto-estrada, foi a impressão deixada nos outros condutores.

Pequenos atrevimentos no trânsito, normalmente brindados com buzinadelas, recebem ao volante do Classe R apenas distância e silêncio circunspecto. Incursões pela faixa esquerda da AE, a nossa presença sinalizada apenas pelos médios acesos, resultam invariavelmente no imediato desvio de todos os veículos à frente do nosso.

Isto não é nada de novo quando se conduz uma marca premium, mas a o tamanho e presença do R parecem acentuar o efeito.

Algumas imagens valem mil palavras. Esta vale mais de 200 cavalos.
E todos os outros condutores parecem sabê-lo por instinto.

Com este tipo de poder à disposição, ser um imbecil no trânsito é muito tentador pois os outros desviam-se sem uma palavra. Não que eu alguma vez abusasse disso… *cof cof*.

De qualquer forma, esse espaço de manobra ajudou a eclipsar o nervosismo inicial e aumentou bastante a minha confiança. Chegado à Serra de Sintra, sentia-me já perfeitamente à vontade para conduzir com ligeireza. Derrotadas pelos enormes limpa pára brisas e pelos potentes faróis de xénon (tudo automático), nem a chuva nem a noite dificultavam o progresso.

Aqui, contrariamente a todas as minhas expectativas, O Classe R não se comportou como nenhum elefante de patins. Nunca deixa de ser evidente que o carro pesa duas toneladas e meia, mas a suspensão faz um bom trabalho. Especialmente considerando que, em circulação normal, nunca é particularmente dura. Apenas firme.

Mesmo a direcção, apesar de claramente mais afinada para conforto do que para feedback, consegue transmitir informação suficiente sobre o estado da estrada para uma correcta avaliação das condições de aderência.

A única questão que resta é se não será tudo demasiado fácil.
Perdido no conforto dos estofos, confiante na margem de manobra cedida pelos outros condutores, colado à estrada pela tracção integral permanente e impedido de fazer diabruras pelo ESP, o Classe R levava-me ao meu destino rapidamente e sem drama, mas também sem emoção.

Claro que o R não é nenhum MX-5. Seria ridículo esperar isso de um monstro de sete lugares. Mas pelo que é, é digno de nota.

CONCLUSÃO

Após 24 horas com o Classe R, acho que já o entendo um pouco melhor.

Não é de todo um SUV, apesar de ter tração às quatro e manter uma compostura perfeita mesmo em estradas de terra esburacadas. Um desportivo também não, apesar da performance impressionante do V6 diesel.  Assemelha-se a um monovolume, com os seus sete lugares e formato ovóide, mas mesmo essa categoria está errada.

A máquina com que o R tem mais parecenças acaba por ser, pensando bem, o jacto privado. Foi feito para transportar até sete pessoas através de grandes distâncias, em grande conforto e alta velocidade. Tal como um jacto, não é para todos. É caro e ligeiramente absurdo. Mas também estranhamente cativante.

É isso, um jacto. Só que com rodas em vez de asas, e um bocadinho mais económico.

DADOS VITAIS

Modelo testado: Mercedes-Benz Classe R 350cdi 4Matic
Lugares: 7
Motor: 3 litros V6 diesel, 224cv, 510 binários
Consumo combinado: 8.5L/100 anunciado, 15L/100 verificado (mas arranca mesmo muito bem)
Transmissão: Cx. automática, tracção integral permanente
Preço da versão ensaiada: 88 mil euros

AGRADECIMENTOS

É sempre agradável encontrar empresas dispostas, não só a apoiar novos projectos, como também a receber opiniões sinceras sobre os pontos bons e menos bons dos seus produtos. Por essa disponibilidade e abertura, e por ter tornado este teste possível, gostaria de agradecer à C.Santos – Veículos e Peças, S.A., concessionário oficial Mercedes-Benz e parceiro de lançamento do PaixaoAutomovel.com .

21 424 58 58 / 22 608 58 58
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csantosvp@csantosvp.pt

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